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Quando duas culturas passam a fazer parte de quem você é

  • Foto do escritor: Cristiane Feitoza
    Cristiane Feitoza
  • há 17 horas
  • 5 min de leitura

Como viver entre culturas transforma nossa identidade, nossos hábitos e a forma como enxergamos o mundo

Morar em outro país transforma muito mais do que o lugar onde vivemos. Com o tempo, percebemos que a mudança não acontece apenas na rotina, no idioma ou nos costumes. Ela também alcança a forma como pensamos, sentimos, nos relacionamos e compreendemos o mundo.

No início, essas mudanças costumam passar despercebidas. Estamos ocupados aprendendo a nos locomover, resolvendo burocracias, descobrindo novos lugares e tentando construir uma nova rotina. Mas, aos poucos, algo mais profundo começa a acontecer.

Alguns hábitos que antes pareciam naturais deixam de fazer sentido. Outros, que inicialmente causavam estranhamento, passam a fazer parte da vida sem que percebamos. É nesse momento que muitas pessoas começam a se perguntar: "Será que estou deixando de ser quem eu era?"

Essa dúvida é muito mais comum do que imaginamos.

Na maioria das vezes, porém, a resposta é não.

Você não está perdendo sua identidade. Está permitindo que ela se transforme.


Viver entre culturas transforma quem somos


Existe uma ideia bastante comum de que nossa identidade permanece sempre a mesma ao longo da vida. Muitas vezes, confundimos identidade com personalidade, como se ambas fossem características fixas e imutáveis.

Embora aspectos da personalidade tendam a permanecer relativamente estáveis, nossa identidade é construída continuamente pelas experiências que vivemos, pelas relações que estabelecemos, pelos papéis que desempenhamos e pelas culturas das quais fazemos parte.

É justamente por isso que viver entre culturas nos transforma.

Essa transformação não acontece apenas porque aprendemos um novo idioma ou conhecemos novos costumes. Ela acontece porque passamos a conviver diariamente com diferentes maneiras de pensar, de trabalhar, de educar os filhos, de organizar o tempo, de demonstrar afeto e de compreender o mundo.

Pouco a pouco, algumas dessas referências passam a fazer parte de nós. Não substituem aquilo que já éramos, mas se somam à nossa história. A consequência natural desse processo é uma mudança na forma como nos percebemos, nos relacionamos e fazemos escolhas.

Você já percebeu alguma mudança em você desde que passou a viver em outro país?

Talvez ela seja muito mais profunda do que parece.


As mudanças começam nos pequenos detalhes


Na maioria das vezes, essas transformações acontecem de forma silenciosa.

Não existe um dia específico em que acordamos diferentes. A mudança aparece em pequenos detalhes do cotidiano.

Pode ser quando começamos a pensar em outro idioma sem perceber. Ou quando misturamos palavras de diferentes línguas durante uma conversa. Talvez até nos surpreendamos usando uma expressão típica do país onde vivemos antes mesmo de encontrar sua tradução em português.

Durante o período em que vivi na Itália, isso acontecia comigo com frequência. Em alguns momentos, percebia que estava pensando em italiano, em inglês ou até misturando os dois idiomas naturalmente, sem fazer qualquer esforço consciente. Era como se diferentes referências culturais passassem a conviver de forma espontânea dentro de mim.

Você já viveu algo parecido?

Esses pequenos episódios costumam ser sinais de que estamos integrando novas experiências à nossa identidade.


Quando novos hábitos passam a fazer sentido


As mudanças também aparecem na maneira como organizamos nossa vida.

Muitas vezes, adotamos determinados hábitos porque o contexto exige. Depois, percebemos que eles fazem sentido e escolhemos mantê-los.

Foi o que aconteceu comigo em relação ao uso do WhatsApp fora do horário comercial. Durante os anos em que vivi na Suíça, percebi que, pelo menos na região onde morava, havia uma separação muito mais clara entre o tempo dedicado ao trabalho e o tempo reservado à vida pessoal. Mesmo nas relações pessoais, mensagens enviadas fora do horário comercial eram menos frequentes, salvo quando havia bastante intimidade entre as pessoas. Essa experiência contrastava com a realidade que eu conhecia no Brasil, onde as fronteiras entre trabalho e vida pessoal costumam ser mais flexíveis e as mensagens muitas vezes chegam até tarde da noite. Aos poucos, passei a estabelecer limites mais saudáveis e mantive esse hábito mesmo depois da volta ao Brasil.

O mesmo aconteceu com a rotina da minha família. Durante o período em que moramos fora, passamos a jantar e dormir mais cedo. Inicialmente era uma adaptação ao contexto em que vivíamos. Depois, percebemos que esse ritmo funcionava melhor para nós e decidimos mantê-lo.

Outra mudança importante foi a valorização de uma rotina mais estruturada e previsível. Naquele momento da minha vida, eu precisava adaptar uma família inteira a um novo país, acompanhar crianças em uma nova escola, lidar com diferentes idiomas e reconstruir a vida em várias áreas ao mesmo tempo.

Foi nesse contexto que compreendi que organização não era apenas uma característica pessoal. Era uma estratégia que me permitia cuidar da minha família e preservar meu equilíbrio emocional.

Quais hábitos você incorporou desde que começou a viver em outro país? E quais deles continuam fazendo sentido para a pessoa que você é hoje?


Aprender que existem muitas maneiras de viver


Talvez uma das maiores riquezas da experiência intercultural seja perceber que aquilo que sempre consideramos "normal" é, muitas vezes, apenas o modo como aprendemos a viver.

Na Suíça, um dos aprendizados mais importantes foi compreender que não existe apenas uma maneira correta de educar filhos, organizar a rotina familiar ou construir relações sociais.

Conviver diariamente com pessoas de diferentes nacionalidades ampliou meu olhar e me mostrou que muitos comportamentos que eu acreditava serem naturais eram, na verdade, profundamente influenciados pela cultura em que cresci.

Essa percepção trouxe mais respeito pelas diferenças, mais flexibilidade diante do novo e uma curiosidade genuína para compreender outras formas de viver.

Quando deixamos de comparar constantemente uma cultura com outra e passamos a observá-las com curiosidade, a adaptação costuma se tornar mais leve.


Um novo olhar sobre a própria cultura


A experiência intercultural não transforma apenas a maneira como enxergamos o país onde vivemos.

Ela também muda a forma como olhamos para o país de onde viemos.

Não porque nossa cultura se torne melhor ou pior, mas porque nosso repertório se amplia.

Quando voltei ao Brasil, comecei a perceber com mais intensidade algumas diferenças culturais que antes já chamavam minha atenção. O uso constante de celulares durante as refeições em restaurantes é um exemplo. Sempre foi algo que me incomodou, mas, depois de viver em culturas onde esse comportamento era menos frequente, passei a perceber essa diferença de forma muito mais nítida.

O mesmo aconteceu com a pontualidade. Sempre gostei de cumprir horários, mas esse valor se fortaleceu ainda mais durante os anos em que vivi na Suíça. Curiosamente, lá eu às vezes me sentia "brasileira demais", seja pelas roupas mais coloridas, seja por chegar alguns minutos depois do horário de início de uma confraternização. Hoje, de volta ao Brasil, continuo valorizando muito a pontualidade nos compromissos e percebo como essa experiência passou a fazer parte da maneira como escolho viver.

Essas mudanças não significam que pertenço menos ao Brasil.

Significam apenas que diferentes culturas passaram a fazer parte da minha identidade.


A identidade intercultural


Talvez esse seja um dos maiores presentes da experiência de viver entre culturas.

Descobrir que nossa identidade não é algo que precisa ser protegido das mudanças, mas uma construção viva, que continua sendo moldada pelas experiências que escolhemos viver.

Cada país por onde passamos, cada idioma que aprendemos, cada amizade construída e cada desafio enfrentado deixa marcas em quem somos.

E isso não diminui nossa essência.

Ao contrário.

Amplia nossa capacidade de compreender pessoas, respeitar diferenças e construir um senso de pertencimento que vai além das fronteiras geográficas.

Talvez viver entre culturas seja justamente isso: permitir que diferentes lugares façam parte da nossa história sem que precisemos deixar para trás quem sempre fomos.

No próximo capítulo da série Viver Entre Culturas, vamos falar sobre um sentimento que acompanha muitas pessoas ao longo dessa jornada: a busca por pertencimento. Por que, às vezes, mesmo depois de anos vivendo em outro país, ainda sentimos que não pertencemos completamente? E como é possível construir esse pertencimento sem abrir mão das próprias raízes?


 
 
 

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