Em busca de pertencimento: quando viver entre culturas faz você questionar onde é o seu lugar
- Cristiane Feitoza

- 27 de jul.
- 5 min de leitura
Uma psicóloga que viveu a experiência de morar fora conta por que o pertencimento leva tempo e como criar raízes, onde quer que você esteja.
Depois de algum tempo vivendo em outro país, muitas pessoas começam a perceber que a adaptação vai muito além de aprender um novo idioma, entender o transporte público ou descobrir onde fazer compras.
Existe uma pergunta que costuma surgir de forma silenciosa e que, muitas vezes, é difícil até de colocar em palavras:
"Será que algum dia vou sentir que realmente pertenço a este lugar?"
Essa dúvida pode aparecer poucos meses após a mudança ou muitos anos depois. Ela não depende apenas do tempo de permanência, do domínio da língua ou da quantidade de experiências vividas. É uma pergunta profundamente humana, porque toca uma das nossas necessidades psicológicas mais fundamentais: a necessidade de pertencer.
Desde o nascimento, construímos nossa identidade por meio das relações que estabelecemos e dos lugares que ocupamos. Pertencer é sentir que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos. É sentir que somos vistos, aceitos e reconhecidos. É saber que nossa presença faz diferença para alguém e que existe um espaço onde podemos simplesmente ser quem somos.
Quando deixamos nosso país, uma parte dessa sensação fica para trás.
Não porque deixamos de pertencer ao lugar de onde viemos, mas porque ainda não construímos raízes suficientes no novo lugar para sentir que ele também nos pertence.
O pertencimento não aparece de uma vez
Existe uma expectativa bastante comum de que, depois de alguns meses, tudo parecerá natural. Como se bastasse aprender o idioma, organizar a rotina ou encontrar uma casa para que a sensação de pertencimento finalmente surgisse.
Na prática, raramente funciona assim.
O pertencimento não aparece de uma vez. Ele vai sendo construído, quase sempre de forma tão discreta que só percebemos quando já aconteceu.
Primeiro aprendemos a nos localizar pela cidade. Depois descobrimos nossos lugares preferidos. Encontramos um café onde gostamos de voltar, aprendemos qual mercado tem os produtos de que sentimos falta, reconhecemos os caminhos sem precisar consultar o mapa.
A cidade, aos poucos, deixa de ser desconhecida.
Mas ainda falta algo.
As verdadeiras raízes começam a crescer quando construímos vínculos.
Quando alguém lembra do nosso nome.
Quando recebemos um convite para um jantar.
Quando sabemos para quem ligar em um momento difícil.
Quando percebemos que existe uma rede de pessoas com quem podemos contar.
Foi exatamente assim que aconteceu comigo.
Durante os anos em que vivi em Lugano, houve um momento em que percebi que minha vida já não era formada apenas pelas obrigações do dia a dia. Eu tinha construído um grupo de amigas, recebia convites, tinha uma vida social ativa e sabia que podia contar com aquelas pessoas. Sem perceber exatamente quando isso aconteceu, comecei a sentir que estava incluída. Pela primeira vez, aquele lugar deixou de ser apenas o país onde eu morava. Também era um lugar ao qual eu pertencia.
Criando raízes
Durante muito tempo, imaginei que pertencimento tivesse relação com o tempo.
Hoje acredito que ele está muito mais ligado às experiências que vivemos e aos vínculos que construímos.
Lugano tornou-se um lugar familiar para mim.
Eu conhecia suas ruas, sabia exatamente onde resolver as coisas de que precisava, caminhava pelo centro com tranquilidade e gostava, muitas vezes, de simplesmente sentar em frente ao lago e observar o movimento. Havia uma paz difícil de explicar. Não era apenas um lugar bonito. Era um lugar que já fazia parte da minha história.
Foi em Lugano que precisei recorrer a tudo o que eu era, tanto como pessoa quanto como psicóloga, para tornar possível uma adaptação profunda e verdadeira para toda a nossa família. Mais do que aprender um novo idioma ou compreender uma nova cultura, foi um período em que coloquei em prática recursos emocionais, flexibilidade, capacidade de escuta, acolhimento e tudo aquilo que eu já havia aprendido ao longo da minha trajetória profissional.
Hoje percebo que essa experiência não transformou apenas a maneira como compreendo os processos de adaptação cultural. Ela também mudou a forma como passei a me enxergar. Descobri competências que talvez nunca tivesse reconhecido com tanta clareza se não tivesse vivido essa experiência. E, de certa forma, essa vivência transformou não apenas o que penso sobre mim, mas também quem eu sou.
É curioso perceber como pequenas experiências do cotidiano começam a mudar nossa relação com um lugar. O que antes era novidade passa a ser rotina. O que exigia esforço torna-se familiar.
É assim que as raízes começam a crescer.
O que continua fazendo falta
Construir pertencimento em um novo país não significa deixar de sentir saudade do lugar de onde viemos.
Existem referências afetivas que permanecem conosco.
No meu caso, uma das coisas de que mais sentia falta era justamente a familiaridade do cotidiano em São Paulo. Gostava da sensação de saber exatamente onde encontrar aquilo de que precisava, da variedade de sabores, dos restaurantes, da comida, da praticidade dos serviços e da facilidade de resolver quase tudo por meio de entregas.
Esses detalhes podem parecer pequenos para quem nunca viveu uma mudança internacional, mas representam muito mais do que conveniência.
Eles fazem parte da sensação de estar em casa.
A saudade, muitas vezes, nasce justamente dessas pequenas experiências que construíram nossa história ao longo dos anos.
É possível pertencer a mais de um lugar?
Uma dúvida muito comum entre pessoas que vivem experiências interculturais é imaginar que, ao criar vínculos com um novo país, estarão deixando para trás suas raízes anteriores.
Na realidade, costuma acontecer exatamente o contrário.
Nossa capacidade de pertencer se amplia.
Hoje, quando penso em Lugano, percebo que uma parte de mim continua lá.
Aquele lugar não representa apenas uma fase da minha vida. Ele faz parte da pessoa que me tornei.
Isso não diminui meu vínculo com o Brasil.
Apenas mostra que nossa identidade pode carregar mais de um lugar dentro de si.
Talvez uma das maiores riquezas da experiência intercultural seja justamente essa: descobrir que o coração é capaz de criar raízes em mais de um lugar.
Como construímos pertencimento?
Essa talvez seja uma das perguntas que mais escuto de pessoas que vivem fora do seu país.
E, se eu pudesse responder não apenas como psicóloga, mas como alguém que também percorreu esse caminho, diria algo muito simples.
Permita-se criar vínculos.
Faça amizades.
Aceite convites.
Conheça pessoas que vivem realidades diferentes da sua.
Participe da vida da comunidade onde você mora.
Permita-se experimentar a cultura local, conhecer seus costumes, celebrar suas tradições e compreender a forma como as pessoas vivem.
É assim que as raízes começam a surgir.
O pertencimento não acontece porque passamos muitos anos em um lugar.
Ele nasce quando deixamos de ser apenas observadores e passamos a fazer parte da vida que acontece ao nosso redor.
Criando um lugar para chamar de seu
Talvez o pertencimento se pareça muito mais com uma árvore do que com um endereço.
As raízes não aparecem no dia em que ela é plantada. Elas crescem lentamente, quase sempre invisíveis. São fortalecidas pelas experiências do cotidiano, pelas amizades, pelos lugares que se tornam familiares, pelas conversas, pelos convites, pelas pequenas rotinas que, aos poucos, deixam de parecer estrangeiras.
Até que um dia, sem saber exatamente quando isso aconteceu, percebemos que aquele lugar também passou a fazer parte da nossa história.
Talvez seja isso o pertencimento.
Não encontrar um lugar perfeito.
Mas criar raízes onde a vida acontece.
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